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Meditação: invista tempo e energia. Aprenda a lidar com o sofrimento.




A dor é inevitável, mas o sofrimento não. Dor e sofrimento são dois animais  diferentes.

Caso uma daquelas tragédias se abater sobre seu estado de mente atual, você  sofrerá. O padrão habitual que atualmente controla  sua mente lhe prenderá naquele sofrimento e não haverá saída.

Um pouco de tempo gasto para aprender alternativas àqueles  padrões habituais será um bom investimento de tempo. A maioria dos seres humanos gasta  suas energias inventando maneiras de aumentar o prazer e diminuir a dor. O Budismo não  aconselha que se pare totalmente com todas essas atividades. Dinheiro e segurança está  bem. A dor deve ser evitada sempre que possível. Ninguém está dizendo a você doar todas
as suas posses e buscar desnecessárias dores, mas o Budismo lhe aconselha a investir parte  do seu tempo e energia aprendendo a lidar com o desprazer, porque alguma dor é inevitável. 

Vendo um caminhão vindo para cima de você, pule para fora da estrada de qualquer  maneira. Mas gaste algum tempo também em meditação.

Aprender a lidar com o desconforto é o único caminho para preparar-se para manejar a situação do caminhão que você nem tinha visto.


Problemas aparecerão na sua prática. Alguns deles serão físicos, outros emocionais,  e alguns serão de atitudes Todos podem ser enfrentados e cada um tem uma resposta especifica. Todos são oportunidades de se libertar.


Bhante Henepola Gunaratana

Pode haver uma mente feliz?

Artavazd Talalyan


(...)


Maharaj: O que você considera estar errado com sua mente? 

Q: É inquieta, ávida pelo agradável e tem medo do desagradável.

M: O que está errado com a sua busca do agradável e fugir ao desagradável? Entre os bancos de dor e prazer o rio da vida flui. É só quando a mente se recusa a fluir com a vida, e fica presa nos bancos, que se torna um problema. Ao fluir com a vida eu quero dizer aceitação - deixar vir o que vem e ir o que vai. Não desejar, não temer, observar o real, como e quando isso acontece, pois você não é o que acontece, você é a quem isso acontece. Em última análise, até mesmo o observador você não é. Você é a potencialidade máxima de que a consciência toda abrange, é a manifestação e a expressão.

(...)

Q: Nossa questão é: pode haver uma mente feliz?

M: O desejo é a memória do prazer e o medo é a memória da dor. Ambos fazem a mente inquieta. Momentos de prazer são apenas lacunas no fluxo de dor. Como pode a mente ser feliz? 

Q: Isso é verdade quando desejamos prazer ou esperamos a dor. Mas há momentos de alegria inesperada, imprevista. Alegria pura, não contaminada pelo desejo - não procurada, imerecida, dada por Deus.

M: Ainda assim, a alegria é só alegria contra um fundo de dor.


I'm That - Dialogues of Sri Nisargadatta Maharaj 
The Living Present

Ostra feliz não faz pérola


“Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que são as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos – seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem. Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostra felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostra felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão...” Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de suas aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a sua rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para a sua casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras de repente seus dentes bateram numa objeto duro que estava dentro da ostra. Ele tomou-o em suas mãos e deu uma gargalhada de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou a pérola e deu-a de presente para a sua esposa. Ela ficou muito feliz...”

Ostra feliz não faz pérolas. Isso vale para as ostras e vale para nós, seres humanos. As pessoas que se imaginam felizes simplesmente se dedicam a gozar a vida. E fazem bem. Mas as pessoas que sofrem, elas têm de produzir pérolas para poder viver. Assim é a vida dos artistas, dos educadores, dos profetas. Sofrimento que faz pérola não precisa ser sofrimento físico. Raramente é sofrimento físico. Na maioria das vezes são dores na alma.

Quarto de Badulaques LXXV 
Rubem Alves
http://www.rubemalves.com.br/quartodebadulaquesLXXV.htm
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